Ansiedade no desporto jovem

O número estimado de crianças envolvidas em desportos, nesta última década, é impressionante. Gould (1987) aponta para algumas centenas de milhões de jovens em atividades desportivas em todo o mundo.

            Muitas dessas crianças estão envolvidas em desportos organizados em escolas e/ou clubes. Para que se tenha uma ideia deste envolvimento, de acordo com Gould & Martens apud Becker Jr. e Telöken (2000), num período de dezoito semanas, elas dedicam uma média de onze horas semanais ao desporto.

    Para a maioria das crianças, o nível máximo de participação ocorre aos doze anos, etapa que caracteriza o ingresso na adolescência.

Lazarus (1991), define a ansiedade como uma resposta a uma ameaça percebida, associada a uma incerteza relativamente ao que irá suceder. Pode ter um efeito facilitador ou inibidor da performance, dependendo isso da forma como o atleta interpreta os seus sintomas e, novamente, da sua perceção de controlo sobre os acontecimentos (Edwards et al, 2002).  É possível entender a ansiedade como um fenómeno que ora nos beneficia ora nos prejudica, dependendo do seu contexto ou intensidade, podendo até tornar-se patológica, ou seja, prejudicial ao nosso funcionamento psíquico (mental) e físico (corporal).

A experiência de pressão e ansiedade na competição desportiva representa um problema preocupante para todos aqueles que, direta ou indiretamente, se encontram envolvidos no desporto (atletas, treinadores, pais, árbitros, etc.). De facto, são bem conhecidas as fontes, e, de certa forma excessivas exigências que se colocam a atletas, treinadores e árbitros, bem como a constante pressão psicológica que lhes é colocada pela competição, não sendo de estranhar a dificuldade ou incapacidade de muitos agentes desportivos ao enfrentar e lidar, eficazmente, com as exigências competitivas (Cruz, 1994; Mahoney, 1989; Martens et al., 1990, citado por Cruz, José Fernando).

Relativamente aos níveis de ansiedade, Cratty (1997) afirma que os adolescentes tendem a evidenciar maiores níveis de ansiedade que os adultos, derivado da inexperiência em lidar com as tarefas do cotidiano. Essa diferença também está presente nos atletas jovens em comparação com os atletas adultos.

Existe, no entanto, uma relação entre ansiedade e o desempenho, na medida em que ambos podem variar de acordo com vários outros fatores como tipo de desporto, dificuldade da tarefa, traço de personalidade do atleta, ambiente, adeptos, etc.  Lazarus (2000) defende que a mesma emoção pode ser percebida como positiva por um atleta e negativa por outro, dependendo das associações que os atletas lhe atribuem e da avaliação da significância pessoal da situação.

A auto-confiança ajuda os atletas a gerirem elevados níveis de ansiedade cognitiva, pois aumentam a sua perceção de controlo e, consequentemente, as suas expectativas de alcançar os objetivos estabelecidos (Edwards et al, 2002). Ou seja, a auto-confiança não parece reduzir a ansiedade cognitiva, mas ajuda a lidar com ela.

Especialização precoce

Os indivíduos com baixa auto-confiança tendem a encarar a ansiedade como debilitadora da performance. Esse aspeto poderá ser camuflado em situação de treino, mas tende a surgir na competição, sendo estes indivíduos altamente sensíveis a qualquer perceção de ameaça (Eubank & Collins, 2000).

  Por cada temporada que se inicia, um número enorme de crianças aparece para praticar e aprender certos desportos, para, talvez vir a chegar ao patamar de atleta de alto nível. Becker Jr. (2000) refere todas elas são submetidas a uma fase de captação de forma a excluir a maioria para se adquirir um grupo de qualidade. Isso só não acontece em escolinhas desportivas, cujo objetivo é o de competir.

  A preocupação dos responsáveis pelas escolinhas, tem sido aperfeiçoar cada vez mais, a metodologia de avaliação das crianças, sem levar em conta o sentimento que cada uma delas vivência no processo. Cratty (1997) diz que raramente o impacto da luta competitiva nos jovens participantes é neutro, seja através do físico ou de personalidades. O desporto de competição compara o desempenho do pequeno atleta frente a outros ou com determinados padrões. Essa comparação pode ser feita entre grupos. A criança faz comparações para ganhar mais informações a respeito do seu nível de capacidade. Neste sentido, ela tem muito mais informações sobre a influência do seu desempenho, contra adversários, do que quando treina sozinha. Desta forma, prefere competir com outras do mesmo nível de aptidão, para testar o seu valor. Muitas vezes isso não ocorre, o que pode implicar traumas mais severos para os que levam desvantagens, em geral os mais jovens e menores (Gelfand & Hartmann Apud Becker Jr, 2000).

 As crianças mais hábeis podem servir de modelo para as menos hábeis e melhorar o seu desempenho, mas, no momento de competir individual ou coletivamente, deve-se tentar emparelhar as forças. Vencer um adversário demasiado fraco não aumenta a auto-estima do vencedor, o perdedor sente-se humilhado e a sua auto-estima reduz. Por essa ordem, há uma necessidade de colocar atletas e equipas mais equilibradas para as competições infantis, podendo ainda assim não garantir um clima ideal de prática desportiva entre as crianças, pois a maioria dos sentimentos negativos vivenciados pelas crianças após as competições desportivas são devidos a ênfase que dão os pais, treinadores e dirigentes à vitória.

Voser (2001) afirma que como em qualquer início de uma atividade nova, é necessário um período de adaptação. Geralmente, a primeira semana de iniciação é um período destinado à ambientação (desporto, professor, colegas, regras). Para a criança, é um momento muito difícil, onde ela sente um clima de afeto e segurança para que se estabeleça um bom nível de relacionamento com o professor e colegas. Neste período, deve-se evitar um grau elevado de exigências. As aulas e os treinos poderão ter tempos reduzidos se for necessário. Neste caso, as atividades mais indicadas serão aquelas que possibilitam a interação do grupo, através de atividades de recriação e lazer para que, mais tarde, o aluno possa adaptar-se ao jogo.

Influência dos pais

            Segundo Machado (1997), o ser humano é um ser sociável que vive em sociedade, sendo possível de sofrer influências que vão afetá-lo de várias maneiras, em vários níveis e em variadas situações. O mesmo autor relata que a interação da criança na sociedade sofre influência dos pais, depois da escola, do professor e de outros grupos como, por exemplo, de uma equipa desportiva.

Marques (2000) reforça ainda que os pais tenham papel fundamental para o bem estar dos filho. Esse bem estar também se refere ao desporto. No entanto, dependendo do tipo de apoio que vai receber dos pais, a criança vai conseguir obter o prazer de praticar a sua modalidade física preferida. Analisando a conduta dos pais de jovens desportistas, verifica-se que existem os que se dedicam a apoiar com moderação, outros que nunca estão presentes e ainda outros que só perturbam com uma conduta totalmente desequilibrada.

Becker Jr e Telöken (2000) acham que as relações entre pais e filhos são muito complexas. Às diferenças evidentes de idade, formação, interesses, etc., têm que ser somadas uma alta carga emocional e a convivência diária. Na prática desportiva, dos filhos observa-se a complexidade, levando em consideração que existe uma avaliação constante já que tanto o rendimento como o resultado estão presentes em qualquer manifestação desportiva. Os mesmos autores dizem ainda que, em muitos casos esta preocupação traduz-se por pressão em conseguir resultados de forma imediata, contribuindo assim a criar um clima altamente exigente e orientado para o resultado. Tudo isso ajuda para que nas competições infantis se observe, muito frequentemente, uma excessiva ansiedade por ganhar uma partida ou alcançar uma meta, havendo um aumento dos comportamentos violentos e uma carência cada vez mais notável de um comportamento desportivo: o fair-play. Os pais têm assumem várias funções em relação à participação do filhos nos desportos desportivos, querendo assumir as funções de professor e adepto.

É cada vez mais visível nos pais quererem “orientar” os filhos em competição através da bancada e exigir deles um determinado desempenho, o que pode vir a despoletar uma determinada ansiedade nas crianças que começa a competir, não para seu próprio benefício, mas sim para agradar aos pais. Procuram respostas aos problemas táticos dos filhos, o que cria indecisão nas suas cabeças, uma vez que essas táticas são diferentes das do treinador.

Influência dos espectadores

Desde a infância, a criança está consciente da presença dos outros. A ambientação social fornecida pela família modela o seu comportamento, a sua vontade de explorar e, provavelmente, o grau no qual ela se empenha em atividades físicas, à medida que cresce (CRATTY, 1997). Os métodos de educação infantil, bem como as relações entre pais e filhos, podem influenciar a reação do atleta mais tarde quando se defrontar com adeptos num desporto.

Conforme Singer (1977) a influência dos espectadores vai depender significativamente do nível de aprendizagem em que a criança se situa. Nas crianças que se encontram numa fase inicial de aprendizagem, a influência dos espectadores poderá refletir-se de maneira prejudicial no seu desempenho, visto que elas ainda não estão preparadas para deparar-se com grandes massas. Outro ponto importante a ser observado em competições é o contacto da criança com as emoções sentidas pelos espectadores. Eles podem proporcionar uma sensação de segurança e confiança para o atleta, da mesma forma que a sua deceção e raiva pode desmoralizar a criança, fazendo-a perder a confiança e o sentimento de segurança.

Marques (2000) diz que nesta fase da vida os jovens adolescentes têm várias outras prioridades antes dos espectadores. O jovem atleta preocupa-se mais em ser aceite no grupo desportivo do clube que frequenta, do seu reconhecimento enquanto atleta pelo treinador, etc.

Influência do treinador/professor

Os estudos indicam que as principais fontes de ansiedade e stress nos jovens desportistas apontam o treinador como um dos principais fatores. Pierce e Stratton apud Becker Jr. (2000), examinaram 543 jovens, e verificaram que as principais preocupações durante a prática desportiva eram: não jogar bem (63,3%), erros nas ações (62,5%), pressões de treinadores (24,9%), pressões de colegas (24,7%) e pressões de pais (11,2%).

Uma prática muito frequente aos treinadores no desporto infantil passa por criticar de forma dura a criança que comete um erro técnico ou tático durante o treino ou na competição (Smith, Smoll & Curtis, 1979).

A situação mais fulcral, geradora de inúmeros conflitos entre o treinador e as crianças, geralmente ocorre após competições com derrotas e fracassos individuais entre os membros da equipa. Neste momento em que o treinador deveria ser aquela pessoa com equilíbrio para providenciar apoio aos seus atletas derrotados, vários perdem o equilíbrio emocional e agridem verbalmente os seus comandados. Estas condutas inadequadas vão fazendo fissuras na relação do treinador com as crianças, podendo gerar redução de auto-estima e depressão das mesmas, bem como um clima de total insegurança (Becker Jr., 2000).

O treinador deve, também, tornar clarificar o verdadeiro potencial dos adversários aos seus atletas, explicitando os pontos fortes e fracos. O principal objetivo do treinador é alcançar as metas propostas no desempenho dos atletas e não o resultado final ou se o adversário é bom ou mau, tal como é referido por Viana apud Buriti (1997).

De Rose Jr. (1994) ressalva a incoerência entre o que o treinador pretende nos treinos e o que cobra no jogo. O treinador exagera nas suas atitudes e solicitações, utilizando técnicas nada recomendáveis para os atletas conseguirem, de qualquer maneira, ganhar. Poderá ser pelo medo de perder o cargo que o treinador haja dessa maneira (gritando, insultando, intimidando, etc.), trazendo consequências negativas sobre o jovem.

Influência da competição

 A competição é um fenómeno universal que faz parte da história da raça humana. Competir sugere a busca de um determinado objetivo e significa rivalizar, lutar e tentar conseguir uma façanha ou proeza. São inúmeros benefícios onde desporto e a competição são capazes de possibilitar ao ser humano; em muitos casos, esses são deturpados quando a sua prática visa o prestígio social ou quando os seus rumos são alterados por influencias políticas, econômicas e culturais (Vargas Neto & Voser 2001).

Os mesmos autores referem ainda que a competição se torna negativa quando a orientação está voltada exclusivamente para o produto: o resultado final. Por essa ordem, o desporto está acima da criança, sendo a mesma vista somente como um atleta com potencial ou um simples objeto de treino.

Magill (1984) afirma que a ansiedade também parece interagir com duas variáveis muito importantes: a importância da situação para o indivíduo e a incerteza do resultado da competição. Qualquer tentativa para determinar se uma pessoa com um dado nível de ansiedade de traço apresentará um alto nível de ansiedade de estado numa dada situação deverá ter em conta estas duas variáveis

Conclusão

O fator ansiedade pode interferir muito em competições de iniciação desportiva, pois as experiências vividas nesse ambiente são novas para o jovem atleta. O medo do que pode acontecer na competição eleva o nível de ansiedade, prejudicando o desempenho das habilidades e interferindo no desempenho motor da criança. O ambiente da competição deve ser propício para uma prática tranquila, onde a criança possa estar confiante, segura do que aprendeu e que acima de tudo goste do que faça.

Verificou-se que a ansiedade é uma consequência das expectativas de outras pessoas e das expectativas auto-impostas pelo jovem. As pessoas que estão próximas dele, treinador, pais, amigos ou companheiros que mais lhe influenciam, tanto pela proximidade quanto pela importância que têm.

Através da literatura pesquisada, vários fatores influenciam o aumento da ansiedade: os pais, o treinador, a importância da competição e os espectadores. O incremento da pressão familiar para que as crianças participem em programas desportivos está associado aos altos níveis de ansiedade. Conclui-se, assim, que as atitudes e comportamentos dos pais são uma das causas principais de ansiedade no jovem desportista.

Os treinadores, além dos pais, são também agentes geradores de ansiedade, através das relações inadequadas que estabelecem com a criança. Observou-se que as crianças têm necessidade de obter avaliações positivas dos adultos e, mais concretamente dos treinadores, que podem provocar um estado de ansiedade ao não receber a resposta desejada.

Um dos motivos para a prática de desporto nas crianças, é o de fazer novos amigos e também o de poder estar com eles. Quando isso não ocorre,  ela pode  sentir-se mal. Também pode acontecer a criança querer procurar aprovação social entre os companheiros e não obtê-la, podendo os níveis de ansiedade aumentar.

As situações gerais que provocam ansiedade são todas aquelas em que existe incerteza (resultado da competição, etc.), nas situações novas (perto de um torneio, necessidade de qualificar-se, etc.), nas que existe falta de informação (categoria do adversário, etc.), nas que há uma sobrecarga de informação (informação ao mesmo tempo do treinador, pais, companheiros, etc.) e nas que faltam condutas para manusear a situação (uma tarefa crítica como cobrança de penaltis e que não foi treinado).

Quanto aos determinantes pessoais, é claro que a ansiedade se relaciona com certos fatores do sujeito como auto-estima e a orientação para o resultado. Neste sentido, as crianças com baixa auto-estima mostram mais ansiedade antes e durante a competição. Foi mencionado também que as crianças que estão orientadas ao domínio da tarefa mostram menos ansiedade do que as que estão orientadas ao resultado (importância atribuída para vitoria e o fracasso).

Verificamos ainda que antes da competição as crianças com baixa expectativa de êxito apresentam mais ansiedade do que as com altas expectativas. Relacionando-se a ansiedade com a alegria e diversão, verificamos, também, que as pessoas que participam e assistem à partida com um espírito de alegria e divertido mostram menos ansiedade.

 Em suma, a ansiedade está presente em toda forma de competição desportiva, na medida em que é impossível saber o que vai acontecer durante um jogo. No caso de uma iniciação desportiva, a competição torna-se ainda mais propícia a um aumento da ansiedade, porque são as primeiras experiências desportivas das crianças. É um momento onde todos os seus anseios estão “em jogo”.